Os livros e a censura.

Os livros e a censura.

Um maço de folhas impressas, capa colorida ou não, portando o título, o nome do autor, a editora, eis a figura de um livro. Essa seria a visão física, como se contempla acidente geográfico qualquer, montanha, lago, estrada. Ele está simplesmente ali, exposto ao nosso olhar e, até esse momento, nenhuma interação aconteceu entre quem olha e o que é visto. Nas feiras do livro, nas bibliotecas, reúnem-se muitos livros, milhares, até milhões.

Os livros me encantaram desde garoto. Mas minha grande descoberta ocorreu em noite chuvosa de minha adolescência, quando visitei minha primeira feira do livro. Só havia seis bancas, os livros cobertos de plástico transparente, protegidos da chuva. Meu pai me enviara a quantia necessária ao pagamento da pensão da JUC, em que eu então morava. Não sobrou tostão algum para contar a história. Sucumbi àquela overdose de tentações impressas. Vivi um sonho.
A visão toda arrumada de poucos ou muitos livros não esgota, porém, o que o livro nos diz. Ultrapassando a simples condição de objeto, transmuda-se, voando nas asas da inteligência, em mensageiro de sonhos, de histórias, de esperanças, de projetos, de informações, de ideias. E é aí que ele se torna subitamente perigoso.

Quem viu Fahrenheit 451 recordará que, no filme, as pessoas memorizam o texto de livros inteiros, para preservá-los das queimadas promovidas pelas autoridades que, para tanto, em trágica inversão, valiam-se do corpo de bombeiros. Autos-da-fé sempre ocorreram com tiranos, que assombraram as mais cultas nações.

O livro representa o grande inimigo dos que querem impor-nos o seu pensamento, para conformar-nos ao seu tamanho ideológico, político, intelectual, afetivo, o que for. Mas do tamanho deles. Se as ideias que professamos não cabem na pequenez da curta fita métrica com que se medem e medem os outros, estão erradas, precisam ser corrigidas, necessitam de corretivo: devem se restringir à mesquinhez do censor. Que destino!
Perigosas as ideias! Ameaçadores os pensamentos livres, frutos da reflexão em ambiente de plena liberdade! Os livros não se escrevem para agradar ao censor, apesar de tudo! As ideias novas, para Thoreau, chegam a este mundo como meteoros que caem com a rapidez do raio e um estrondo de explosão, destruindo os telhados. Tão perigosas quanto meteoros!

Censura e crítica não se confundem. Enquanto esta constitui manifestação de liberdade, em cujo exercício minha opinião pode opor-se à do outro, pode ser diversa da do outro, a censura vai em sentido exatamente contrário. Ela quer impedir a opinião do outro. Quer sufocá-la. Quer matá-la. Ela se autoasfixia com o vento forte da liberdade e pode aparecer sob formas menos óbvias, como as patrulhas de todo tipo, à espreita das discordâncias.
A censura brota da intolerância. Pretende não apenas extinguir o pensamento alheio mas, na sua dimensão mais extrema, pode até querer matar o pensador. A censura, cerceando o pensamento livre, alimenta-se nas regiões mais escuras da alma, aquelas ocupadas pela inveja e pelo ódio, pela prepotência e pela rejeição do outro. Descamba em violência. Eis o ambiente do censor. Um livro deveria ser um veio de ouro, como a frase é diamante achado na areia ou pérola pescada no mar, na expressão do mesmo Thoreau, para quem devemos ler primeiro os livros melhores, por temor de não lê-los nunca.

A intolerância do censor surge diante do livro que o incomoda.
Vestindo-se com galas de fingida indignação, a censura pode mascarar-se com protestos contra o que foi dito ou contra o que, na visão do censor, deveria ter sido dito. Para o censor, só existe um crime imperdoável: a liberdade de dizer e a liberdade de calar. Ou, por outras palavras, dizer o que ele não quer ouvir e não dizer o que ele acha que deveria ser dito. Que o censor se recolha às zonas sombrias que lhe povoam a alma. Qual o antídoto a tão destrutivo veneno? Todos lhe sabemos o nome. Chama-se liberdade.

Nestor José Forster
Advogado

Fonte: Jornal Gazeta do Sul de 16/10/13

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